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Home Archive for 2012



Paciência é o que falta,
Me falta paciência para aguentar a ansiosidade,
Me falta paciência para apreciar os dias.
Me faltam dias,
Dias para serem vividos com paciência, com coerência.
Me falta desejos a serem alcançados,
Falta medo, para não cair em doutrinas desonrosas,
Faltam sonhos para serem realizados,
Faltam realidades para serem sonhadas,
Falta um final triste ou feliz.
Falta o mundo, falta tudo.

     O quarto estava frio, gélido como sempre, olhei para a garota do espelho e ela retribuiu meu olhar. Fiquei ali parada a observando como de costume, e assim passei mais um dia vazio.

     Sou uma garota de treze anos anti-social, realmente não me identifico no meio que vivo, meus pais me ignoram e assim todos seguem o exemplo, realmente não existo. Há alguns dias atrás numa venda de garagem arrumei um espelho velho, uma velharia qualquer, mas me encantou desde o momento que vi. Em um ato infantil o roubei. Ninguém pareceu se importar quando o peguei e sai correndo, era só uma velharia afinal.
     Como meus pais não estavam em casa foi fácil leva-lo até meu quarto, o coloquei frente a minha cama. Não imaginava que esse espelho me traria algumas noites de pesadelos. Então numa noite qualquer a vi, estava ali com seus olhos fundos imersos na mais negra escuridão, com a sua pele mais branca que a lua e seus cabelos escuros como uma noite de inverno. Antes ela até me dava arrepios agora não, nunca me fez nenhum mal. Poderia dizer que apenas uma ilusão da minha mente. Que sou um pouco louca eu sei, mas também sei que ela é real.
    No começo ela me deu medo, sua face pálida como se estivesse morta, sim provavelmente deve estar, deve ser uma alma de alguma garota que morreu frente a espelho, como nos livros e filmes de terror. Talvez ela não passe de uma lembrança. Mas ela me faz bem, minha única companhia.
    Se cheguei a ser uma pessoa normal em algum momento da minha vida, o fato  de ter uma falecida no espelho frente a minha cama mudara isso,  desde quando conheci a garota do espelho, não sou mais a mesma. Ela é como aquelas lendas urbanas, como aquelas correntes que tropeçamos nos sites de relacionamentos a todo o momento: “ morri no arame farpado se você não enviar isso para mil pessoas, você irá conhecer o meu leito de morte”.  Nesse caso ela está presa no espelho que roubei.
     Obviamente no começo senti medo até tentei tirar da parede, tentei em vão, era como se ambos fossem um o espelho e a parede. O cobri, mas ainda assim sentia o olhar da garota sobre mim, nunca tive medo, nunca acreditei no sobrenatural até me deparar com ele no meu quarto. Mas o que eu sentia não era medo. Não. Agora me sentia menos sozinha.
     Em uma das vezes que tentei tirar o espelho da parede um papel caiu, nele havia um endereço. Resolvi chegar ao fundo daquilo, eu ia descobrir quem era a garota do espelho. Quando cheguei ao destinatário, havia achado que não passara de uma viagem em vão, uma casa abandonada, quase tão antiga quanto o espelho, não havia uma janela se quer inteira, e a porta estava beirando ao chão. Na entrada havia uma pequena caixa de correio caída, dizia Marvel’s. Era estranho como naquele bairro aquela era a única casa abandonada. Por um segundo senti como se aquela casa não existisse.
    Sendo a atitude mais obvia e idiota entrei na casa, como aquelas mocinhas de filme de terror fazendo coisas estúpidas. Por dentro a casa era menos adorável que por fora, nada realmente interessante, uma mobília peculiar que até combinava com aquele espelho velho. Não sabia o que estava procurando, mas continuei ali, alias não entendia nem o real motivo de estar naquele lugar imundo e caindo aos pedaços.
     Espreitando-me por cada canto da casa encontrei, os papeis estavam numa gaveta meio quebrada de uma escrivaninha duma espécie de escritório. Eram recortes de jornais antigos. Todos sobre o mesmo caso de morte de uma garota.

     Finalmente encontraram o corpo da pequena Mary Marvel, seus pais diziam sobre um suposto sequestro, mas na verdade a menina esteve o tempo todo trancada no porão, porém seus pais o negam e também negam tê-la matado. Aparentemente pelas evidencias parecera suicídio. Seu corpo jazia imóvel frente a sua penteadeira, seus pulsos com cortes fundos, mas sem indício de sangue, a empregada da casa a encontrou já morta. Muito provavelmente o corpo foi arrastado até aquele lugar. Os pais choraram no velório, mas foram presos no dia seguinte, mesmo negando a culpa...

     Abaixo havia uma foto, eu a vi ali, a garota do espelho, porem seus olhos eram azuis como o céu e tristes como os dias nublados, não os negros que eu costumava ver, então senti compaixão.  Agora estou aqui, falando com ela, implorando para poder ao menos uma vez ouvir sua voz, para me sentir melhor.
- Mary? – era a primeira vez que a chamava pelo nome, e também era a primeira vez que ela se movia, então tive certeza que ela não era só uma ilusão, ela era real e de alguma forma estava ali dentro. Mesmo estando morta.
- Eu soube da sua vida, alias acho que você deve saber disso. Sei que de alguma forma fui manipulada até chegar a sua antiga casa, mas não entendi a mensagem que você quis me passar... Você poderia falar comigo?! – a garota se moveu novamente, e virou-se para mim, senti um arrepio subir minha espinha, senti medo e ao mesmo tempo desejo, desejo de vê-la sair dali de dentro, de entender o que ela queria me dizer. Ela continuava calada, então desisti, fui até minha cama e me deitei sentindo os olhos negros sobre mim. Quando acordei, ela já não estava mais ali, senti o vazio de estar sozinha pela primeira vez desde quando ela apareceu, mas continuava sem entender, nada fazia sentido.
     Dias e noites se passaram sem a garota no espelho, minha vida havia tomado aquele tom monótono de novo. Sozinha novamente, já passara algum tempo desde a última vez que tinha visto meus pais, só agora senti a falta deles. Aquela presença da menina no espelho me reconfortava de alguma forma. Ia enlouquecer se ficasse mais tempo sozinha.
     Insistia tanto para Mary aparecer, até pedi desculpas sem entender o motivo, mas ela não aparecia, estava tão sozinha.
- Mary, por favor – implorei novamente frente ao espelho vazio, então quando já havia desistido ela apareceu, com sua aparência mortífera de sempre, eu sorri, ela sorriu junto, como se fossemos uma. Senti lagrimas molharem meu rosto, quando sequei-as com as costas das mãos vi sangue, muito sangue. O mundo começou a rodar, vi meu corpo na frente do espelho como se ele não me pertencesse, senti o sangue explodir dos meus olhos.
     Senti um puxão, o espelho me devorava como um monstro, em um segundo havia caído lá dentro, mas ainda me sentia fora. O Chão infestado de recortes de jornais com fotos minhas, li a manchete de um “Corpo encontrado, uma pequena garota foi estrangulada e seus olhos decepados...” Então finalmente entendi, a garota do espelho estava parada na minha frente, ela estendeu sua mão e a peguei, e ela me guiou pela escuridão, pelo caminho entre a vida e a morte até então desconhecido...

   Eu olho pra você, você olha pra mim.
E continuaremos nesse jogo de olhares,
Na esperança de esse pequeno sentimento que esta nascendo vire atitude,
Na esperança que eu possa segurar em sua mão, sentir seu cheiro olhar em seus olhos e sussurrar em seu ouvido, tudo isso que está aqui crescendo,
Isso que me faz pensar em você o tempo todo me faz querer poder te amar a vida toda.

Melhor parar por aqui com essa minha imaginação, é apenas uma troca de olhares...
É apenas uma pequena atração pelos seus olhos... Atração... Acho que já virou paixão...

                Estava frente ao espelho me observando já fazia tantos anos que não me importava com a vaidade. Minha pele está envelhecida e enrugada, revelando minha idade já muito ultrapassada. Sorri para ter certeza que meus dentes ainda estavam ali. Ao contrario da maioria das senhoras não tenho aquelas marcas no canto dos olhos.
                Ainda quando criança perguntei a minha mãe por que minha avó tinha aquelas marcas estranhas no canto dos olhos. Ela sorriu gentilmente e falou “sua avó chama de pés de galinha, um dia você também os terá, por que você será uma mulher muito feliz cheia de netinhos que irão lhe fazer essa mesma pergunta, enquanto você sorri para eles”. Não sei por que, mas essas palavras nunca saíram da minha cabeça. Talvez seja por ter sido minha ultima oportunidade com minha mãe antes dela adoecer e partir.
                Ao contrario do que ela disse, não fiz uma família e não consegui viver meus dias.
Tive uma vida amarga e agora não passo de uma velha chata, que vive entupida de remédios em um asilo.  Ao menos queria ter os pés de galinha da minha avó, pra ter um significado nisso tudo, para saber que minha mãe em algum segundo teve orgulho de mim.
                Sei que é ridículo decidir agora, já devo ter 70 ou talvez 80 anos, parei de contar, não queria me sentir mais impotente. Essa noite completa cinco dias sem meus remédios, e nesses cinco dias só agora me sinto realmente pronta para morrer. Encontrar minha mãe e poder ver seu sorriso macio novamente.
 
               Uma noite fria uma senhora, sentada no parapeito da janela observando a Lua, chamaria a atenção de qualquer pessoa passando na rua, se a mesma não estivesse vazia.  Ventava tanto, que seus cabelos crespos e brancos voavam como se tivesse vida. De repente uma brisa quente e aconchegante, seu rosto corou levemente, ela fechou os olhos e sorriu como por um milagre, um ultimo sorriso em sua ultima oportunidade, e dali seu corpo enrugado caiu e se fez em mil pedaços. Como alguma magia, sua queda pareceu durar horas e nem um momento ela optou por tirar o sorriso do rosto, e assim ela se foi. Calma, tranquila e feliz.

                     Eu sei que é apenas mais um dia monótono como todos os outros, ficar na frente do computador entediado, não faz tanta diferença. Mas hoje está mais estranho que o normal, a cadeira na qual sempre me conforto, não esta suave como sempre, o teclado em que desabo não esta mais ciente de minhas palavras indiscretas. Eu sei que realmente isso só possa ser uma duvida de como fazer tudo ser diferente, de como sair na luz do sol de novo e parar de viver como um zumbi na frente disso. Mas o medo sempre acaba sendo pior, sempre fico aqui, sozinha, trancada em meus próprios medos.
                     Medo é exatamente o que me mantém viva e morta, é um paradoxo. Não saio daqui por medo de viver, não faço essa angustia acabar, por medo de partir, por medo de morrer. Sou estranho eu sei, eu não deveria ser assim. Talvez um dia eu tenha a oportunidade de ser uma garota normal, e sorrir junto a alguém. Alguém é mais ou menos aquilo que as pessoas costumam chamar de amigo. Não sei o significado literal disso, mas dizem que é magnífico.
                  Já faz muito tempo que não sinto a brisa do cair das noites, não lembro a ultima vez que vi o Sol se por, deve ter sido em alguma das fotos que estão espalhas por ai. A única coisa que faz minha alma continuar vagando nessa imensidão é uma pequena falha que me faz ter esperança. Esperança? Não eu não tenho, o medo apenas ele me faz estar aqui. Medo. Quem sabe um dia encontre um príncipe num cavalo branco que arrombe a porta do meu apartamento, me leve à força para longe daqui. Do jeito que tenho sorte, ele seria algum tipo de alcoólatra confundindo sua casa, e estaria com um vira-lata, só me fazendo sentir mais medo de tudo isso que está ai fora. É realmente chato e vago, ficar falando tanto e dizendo nada, só descrever um pouco de agonia, por que minhas angustias já se foram.
                      O assento da minha cadeira esta mais dura que o habitual, alguém realmente pesado deve ter sentado aqui, talvez esteja sendo observada, mas as janelas estão fechadas, as portas estão trancadas. Mas eu dormi, eu dormi, por um segundo eu dormi, sei que dormi. Algo pode ter acontecido enquanto baixei minha guarda. Meu teclado está surrado, eu tenho certeza, sim alguém esteve aqui.
                  Que nada é só coisa da minha cabeça está tudo muito velho, muito usado, preciso comprar tudo de novo... Preciso? Que nada deixa pra lá, está tudo do jeito que deveria estar.

                Dez anos, o cheiro de fuga estava ali, assim como a sombra de morte as acompanhavam. Em seus olhos inocentes podia se confundir a esperança com medo. As mãos frias e suadas revelavam o receio de tudo dar errado, e essa não ser apenas mais uma noite qualquer. Aquela jamais seria uma noite qualquer.
                Uma de pele cristalina e a outra levemente bronzeada, elas uniram suas mãos e seus sonhos, começaram a caminhada, ninguém acreditaria que elas eram apenas crianças nem ao menos se pode acreditar que elas realmente tinham motivo para partir. Se o mundo não fosse tão complexo, elas estariam agora aproveitando sua infância, como num tempo atrás, antes de se conheceram já estava acontecendo...
                Crianças nem sempre são inocentes, bom nessa maldita historia não são. Não sei bem se podemos chamar essas meras criaturas de crianças ainda, já são tão adultas.
                A mais velha era chamada de Eduarda, mas quando partiu mudou seu nome para Ângela assim como o de sua mãe. A mais nova era Amanda, assim como seu nome dizia um amor de pessoa. As duas juntas davam um verdadeiro significado a esperança.
                Eduarda era filha de uma mulher linda, assim como ela, sua pele cristalina chamava atenção aonde ia, seu pai um velho milionário que a Amava como nenhum outro homem poderia amar uma mulher, ele enlouqueceu após a morte da esposa, e via a filha como tal, acho que não preciso explicar daí em diante Eduarda sofria muito, mas não culpava seu pai, até o dia que cada osso de seu corpo foi quebrado, um a cada dia. Eu sei é um tanto exagerado.
                Amanda nunca conheceu seus pais, morava com os avós, sua avó lhe dizia que seu nome havia sido escolhido por sua mãe no leito de morte. Seu pai? Nunca foi mais do que um desconhecido, seus avós a criaram como filha, até dois anos atrás quando por ventura do destino seu avô faleceu, sua casa era muito humilde e aposentadoria da sua avó não garantia nem um alimento. A levaram a um abrigo, a partir daí ela foi encaminhada para vários lugares, casas de famílias, onde ela poderia morar, casas grandes e ricas, casas pequenas. Mas sempre quis voltar para o aconchego de sua avó, mas seu objetivo dali em diante seria encontrar seu pai.
                Cerca de oito meses atrás Amanda foi mandada para essa cidade no interior da Bahia, quando começou a frequentar a escola, no meio de uma briga conheceu Eduarda, assim viraram amigas, logo confidentes e Hoje Ângela e Amanda fugitivas.
 

 - Você tem noção por onde podemos começar tudo isso? – de longe podia-se ver o medo no olhar de Angela.
  - Você não deveria estar aqui, eu falei que eu ia embora, isso na incluía você. Eu sei que você está com medo, é melhor voltar pra sua casa.
- para de falar bobeira, sei que você não conseguiria se virar sem mim, alem do mais eu conheço os melhores pontos dessa cidade, e sei onde nós vamos arrumar uma carona. Alias qual seu plano mesmo? – ela arrastou sua amiga até posto de paradas de caminhões, era um lugar estranho, movimentado e com certeza, crianças não deveriam passar por ali.
- eu quero ir até a casa da minha avó, e a partir de lá procurar meu pai.
- e onde ela mora?
- Pedro Versiani, é uma cidade linda.
- deve ser longe, Minas, certo? – Amanda confirmou com a cabeça, seus olhos estavam hipnotizados olhando a estrada, que as separavam daqueles imensos caminhões.
-Amanda você esta vendo aquele caminhão menor, com a carroceria aberta, tem uma lona laranja em cima. Nós vamos subir nele, e se esconder em baixo daquela lona.
-e para onde ele vai?
- não sei, mas nós temos que sair dessa cidade antes que alguém nos encontre, assim que amanhecer, sairemos dali. E vamos para a sua cidade.
                Antes o que era medo, agora virou determinação, elas correram até o caminhão sem serem vistas, demoraram um tempo até conseguirem subir e se esconder. Meia hora depois um velho entrou naquela cabine, e encaminhou aquele veículo para algum lugar, pobre homem inocente.  Uma semana mais tarde fora interrogado, elas não haviam sido imperceptíveis. Alguém as viu, mas a questão é, por que não foi feito nada. Dizem que lugares assim é algum comum de acontecer, jovens com vontade de ir pra cidade grande ou sei La o que, ninguém se importa na realidade.
                Mas agora é onde tudo começa e também onde tudo acaba.



                Talvez as melhores coisas da vida só aconteçam quando não estamos sozinhos e nem quando estamos numa multidão, são coisas simples, só notamos depois que o tempo nos trás a saudade. Infelizmente as pessoas entram uma na vida das outras, com um olhar, uma palavra, um gesto, tocam numa vida e deixam marcas irreparáveis, sendo elas boas ou ruins. Pessoas são tão complicadas, frias e confusas.
                  Uma garota de um metro e meio, pele escura como a noite, interrompeu uma figura que viaja sombriamente sozinha.
- Você gosta muito desse lugar né?
- Sim
- Por quê? O mar é tão fascinante assim?
- Sim, ele me acalma e me conforta.
- Mas é só um monte de água.
-... É o monte de água que me faz esquecer tudo.
- Tudo o que? Sua vida é tão ruim assim?
- Não pra você... É só complicado. E afinal o que você está fazendo aqui, não deveria estar em casa?
- Casa... eer gosto de conversar com você
- Gosta é?
- Sim eu gosto...
                Antes tivesse parado nessa pequena conversa sem fundamentos, mas manhãs se abriram e noites cessaram, em meio tanta solidão. Duas pessoas que viravam uma. Anos, dias, momentos passaram e ficaram pra trás, sobre uma testemunha, um único mar que tanto esperou até recebê-las, tornando-as frias e ocas. Como se nunca tivessem existido...
          Toda vez que fecho os olhos tenho medo de abri-los novamente. Abrir e me dar conta que o tempo acabou, ver minhas malas frente a minha casa e ver um caminhão levando uma pequena parte de mim. Ver que a minha felicidade não vai ser encaixotada e levada junto, ela vai ficar pra trás, com tudo que ha de mais importante.
          Se os fechar novamente não vou querer abrir, não quero ser mal educada, adolescente mimada, a menina revoltada.
          Manter os olhos abertos, em um piscar tudo pode mudar, tudo pode mudar... Medo, medo, essa angustia, ansiedade mortal. Preciso fechar os olhos, preciso descansar, preciso da minha felicidade comigo, preciso dele pra esquecer que o mundo machuca. Preciso acreditar... Preciso aceitar...
          Três, quatro meses, fechei meus olhos, agora vejo mina vida baseada nisso. A distância cruel que arranca um sentimento lá no fundo, a saudade. Queria não chorar, preciso ser forte. Mas meus olhos estão fechados o tempo esta acabando, talvez meu coração comprimido desapareça e eu esqueça, mas não. Minha felicidade é perfeita demais para ficar pra trás.
          Ir, não ir, viver, vencer... Não é só escolher... Só posso dizer o quão te amo razão do meu sorrir.

                    Um homem jovem alto, uma face vivida, dentro de um terno preto de grife, inapropriado para o local tão humilde onde estava. Encostado numa janela, impedindo que qualquer luminosidade entrasse naquele minúsculo cômodo. Uma espécie de quarto; a umidade nas paredes fizera o seu reboco cair a um bom tempo, o teto esburacado parecia que poderia desmoronar a qualquer momento, havia também um alçapão no chão, que era única certeza que havia uma saída daquele lugar imundo e horrendo. Já seria desconfortável aquele rapaz sozinho ali, mas havia mais alguém com ele, uma menina, aparentemente como todas as outras, mas através de algo não atento se podia presenciar o incomum. Ela era de uma cor pálida, como se nunca houvesse saído à luz sol, seus cabelos longos e pretos com pequenos cachos nas pontas e um vestidinho branco lhe davam uma aparência mais infantil, seis talvez sete anos. Porém seu olhar lhe dava mais, nada inocente residia naquele corpo.
          Ela estava sentada numa velha cadeira de madeira, que rugia a cada movimento que ela fazia, ela estava insegura era certo isso, seu olhar mudava a todo o momento, como se houvesse uma guerra silenciosa dentro de si, uma hora bom outro ruim, como um corpo de dois donos.
            Passaram-se horas e o jovem encostado na janela sem se movimentar, assim chegou à noite e o olhar gélido na criança permaneceu, até se cansar e cair e um sono profundo. Acordando horas mais tarde. Estava marrada naquela mesma cadeira, dominou-se pelo desespero ao perceber que estava sozinha e presa naquele lugar medíocre, tentando se libertar caiu junto à cadeira. Passaram-se horas e ela estava lá caída e chorando, esperando até aquele rapaz voltar, afinal ela sabia que gritar não iria adiantar.
          Um dia, dois dias, dois dias e meio a menina estava desnutrida, perto da morte, até aquilo que jazia dentro de si travando guerras, havia a deixado. A menina totalmente indiferente, pronta para morrer assim como merecia. Ela teve um pouco de fé quando o alçapão do chão se abriu, mas as lagrimas voltaram ao rever aquele jovem que tinha a deixado para morrer. Ele estava com uma mochila, que não combinava com aquele mesmo terno que ainda vestia. Foi até a menina afrouxou um pouco as cordas, de uma maneira que ela não podia se libertar a levantou e a abraçou tirou da mochila comida e a alimentou. E o fez de novo encostou-se à janela e lá ficou, mas dessa vez ele a observava.
          A noite chegou novamente, o jovem rapaz então se movimentou, pegou duas garrafas de sua mochila e começou a jogar o liquido que nelas haviam por todo aquele cômodo, quando chegou à menina jogou aquele liquido nela sem hesitar. Depois de dias de convívio, ele lhe dirigiu a palavra pela primeira vez.
- Eu sei que não é bom o que farei, mas algumas coisas precisam descansar, e o que quase morreu dentro de você e que permanece ai precisa muito disso. Se você morrer, o demônio morre junto contigo e o mal aqui presente se vai. – jogou um tanto de sal nela. Abriu o galpão e pouco antes de descer por ele jogou um isqueiro aceso, o liquido que mais parecia água, virou chamas rapidamente, até chegar à criança, sua pele branca e macia, foi se transformando numa pele vermelha e cheia de bolhas. Sua única imagem foi da fumaça negra entrando em seu peito e sufocando seus pulmões. Ela não gritou, não hesitou por um momento se quer, apenas aceitou a morte como lhe fora dada. Seu corpo virou cinzas e sua alma amedrontadora se aprisionou ali onde fora sua ultima estádia.
          Lamentável como foi mais um pecado, nenhum demônio morreu, só se foi um corpo, inabitável. Ninguém nunca a salvou, agradeceram pela alma amaldiçoada que se foi, mal sabiam que aquilo seria uma salvação ao que fora perdido.
          O violão em minhas mãos, tocando aquela musica, a música que me faz lembrar, o que não devia o que não poderia, mas isso me distrai o que me tira desse mundo cruel. A arma esta ali, uma única bala, uma única razão, o que fazer? Eu ou você?
          Vá garota, aceite as mentiras, viva a sua vida. Ela tenta, tenta muito ser feliz, é impossível quando há um mal passado a encobrir. E mais uma vez deixo de tocar, esqueço de apreciar a minha música, a arma me chama, a bala pede pela punição, eu ou ele? Eu ou ele? Maldita  duvida cruel, a resposta está aqui, eu sei eu sinto, eu devo ir, mas ainda não chegou a hora, porém não serei só eu a morrer.
      
         O estrondo a bala cravada, o sangue escorrendo, o pequeno garoto implorando.
· por que você faz isso comigo, o que te fiz?
- não permitirei que você cometa esse crime com mais ninguém, por que faz isso? Eu tanto te amei.
- você é louca, por favor, não me mate, eu não sei o que fiz de errado. Perdoa-me...
          Ontem eu o vi, ele a beijava, a agarrava com tanto desejo, com tanto amor, eu não podia deixar isso acontecer, eu tinha que salva-la, então atirei, era a única bala, minha sorte não estava comigo, eu errei, como sou incompetente não consegui o matar, mas agora sei que é minha hora, a água está abaixo, água corrente, eu sei que não irei sobreviver.
          Um susto de repente, a água a minha frente, falta à respiração, por fim a escuridão, ações involuntárias, o que fiz foi em vão, o problema não era ele, o ser que agora será o paraplégico, foi inocente, nada passou alem do meu amor doentio.
          o estrondo o corpo afundando, ela partiu ali... A musica que tocava, que fora sua despedida, pequena criminosa. Não volte mais.

          Tão escuro e ao mesmo tempo tão claro, tão vazio e tão cheio. Tanto desespero ao meio de tanta calma. Tanta ânsia de querer fazer tudo mudar e medo de ter tudo diferente. Minha falta de esperança consome cada raio de vida que há em mim. Não que eu esteja morrendo, a morte já chegou aqui há muito tempo, mas até sua presença fugaz se foi.
          Estranho como todas as manhas a luz do Sol evita me cobrir, mas os insistentes olhares não evitam me ferir. Minha mente me enlouquece cada vez mais ao me iludir, não tenho forças para controlar o que penso, por isso prefiro acreditar em mentiras que faço á mim mesmo.
           Meu transtorno mental me faz desejar cuspir minha alma. Mas sendo feliz ou infeliz, não tenho força para chegar até o fim, para entender o que já é inexistente, para deixar de ser uma mera presença mortal que se esvai quando menos se espera. Quando a esperança realmente brilha...  Quando a fé finalmente nasce... E minha luz finalmente se apaga, como todas as outras...
Diário
1ª Noite 03h00min

            Já era a terceira vez essa semana que acordo com o miado daquele maldito gato, antes não tivesse vindo morar nesse local, ao menos poderia ter uma noite tranquila sem esse maldito gato. Pra variar esta ele aqui na janela da cozinha, olhando pra mim, seus olhos amarelos e ferozes me da arrepios; apesar de ser um gato vira-latas, ele é um charmoso gato preto, se eu não estivesse tão cansada desse fútil mundo talvez poderíamos ser amigos.
           Está uma noite tão linda e escura, Lua Nova isso me acalma posso tentar voltar a dormir...

7ª Noite 03h00min
          Meus olhos estão pesados, estou entre aqui e lá, não sei se estou acordada, não consigo saber se estou dormindo. Sinto algo em minhas pernas, pequeno quente e macio é confortável, mas sobre seu toque minha pele se estremece em arrepios. Não estou com medo, mas sinto que estou tendo um pesadelo.
03h01min
          Droga, droga, esse maldito gato esta aqui em cima de mim, esse maldito pulguento esta na minha cama. Ainda irei mata-lo, mas hoje estou satisfeita em expulsa-lo a vassouradas. Mas como ele entrou aqui? Julguei que a casa estava toda fechada, mas há uma leve brisa fria ultrapassando a janela da cozinha. É ele só pode ter entrado por aqui, tive fé que ele estaria morto, me deixou em paz por tantos dias.•.
 8ª Noite 09h30min
          Fechei tudo por aqui, essa noite gato nenhum vai me atormentar, irei dormir igual uma pedra.

10ª Noite 03h00min
           Acho que agora isso chegou ao limite, não sei como dessa vez ele invadiu aqui novamente, esse gato encrenqueiro urinou em mim. Quase o matei com o cabo da vassoura, apesar de sair daqui sangrando ele nem se queixou de dor, mas amanha resolvo tudo isso, vou envenenar esse maldito gato.
06h15min.
          Estou começando a ter medo dele, preciso o matar o quanto antes. Acordei essa manha ele estava aqui, sentado frente a minha cama me olhando, com aqueles olhos amarelos hipnotizantes, sei que não havia mais nenhuma maneira dele entrar aqui. Preciso mata-lo...
 
12ª Noite 12h00min
          A noite esta tão tranquila, mas não consigo dormir o que é estranho, me sinto tão cansada, apesar de estar dormindo bem ultimamente. Depois que comprei o veneno não vi mais o maldito gato, mas não estou me sentindo muito bem, me sinto exausta, aparentemente não durmo há semanas, porém tenho dormido mais que o normal.
03h15min
           Estou com medo, acordei há quinze minutos com o barulho de paços e coisas se quebrando  vindo da cozinha, mas minha covardia não permite que eu vá saber o que acontece lá. Talvez isso seja só fruto da minha imaginação, aquele gato deve ter me deixado louca.
 
13ª Noite 03h03min
           Estou apavorada, não sei o que faço, tem algo tentando arrombar a porta do meu quarto, eu sei que não estou sonhando. Não posso estar.
           A porta antes fechada que estava sendo esmurrada se abriu suavemente e pude ver aqueles olhos amarelos. De alguma maneira, aqueles olhos me acalmaram me hipnotizaram, tudo ao meu redor sumiu, fui chegando cada vez mais perto, mas quanto mais me aproximava mais longe ele estava. Eu precisava dele, o queria.
          Quando me despertei daqueles olhos amarelos, soube que não era mais a mesma, podia ver meu antigo corpo estirado no chão. Sim meu antigo corpo. Não sei ao que pertenço mais, não sinto mais medo, não sei o que aconteceu. Só estou presa a esse cômodo frio, tentando voltar ao meu antigo corpo, não quero ser uma bola de pelo... Maldito Gato.

Jornal
- Foi encontrada essa tarde uma jovem mulher morta na cozinha de sua casa, apesar de ter várias marcas de pauladas em seu corpo a sua morte aparentemente foi causada por envenenamento.  Uma vizinha informou que ela não era muito normal, andava pelos cantos perguntando sobre um gato. Estipula-se que sua morte foi suicídio, em sua mão havia um gravador, e nele ela só dizia: “Cadê meu gato?”.
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Sobre Mim

Sonho em salvar almas despedaçadas como a minha, miro em casos perdidos e sou tão boa de queda quanto de cicatrização. Casada com a impaciência e melhor amiga da falta de atenção, tantos anos que não gosto de contar. Dona do português mais desafinado desse país e fã de poesia. Jornalista e nas horas vagas tiro foto do meu all star em todo canto de SP.

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