Pai...


Sabe... eu nunca fui amada, mas quando eu nasci meu pai chorou, ele veio de um tempo onde homens não choravam, mas ele chorou e sabe... eu choro toda vez que lembro disso, pois meu pai nunca amou ninguém, mas naquele momento ele me amou.

Eu já estou velha demais para falar sobre a falta de amor paterno, mas não é ele que define as estruturas? Eu cresci completamente desestruturada, e não sei se depois daquele dia alguém me amou. 

É ridículo, né? Como adultos falam de carência e sobre a necessidade de ser amado, eu preciso mesmo ser amada por um estranho para me sentir autossuficiente? Queria mentir e dizer que não, mas honestamente acho que sim.

Meus pais vieram de uma época onde demonstração de afeto era ter mistura no almoço, quando tinha almoço. Eu almoço todos os dias, eu como tanto... por que ainda me sinto tão vazia?

Eu sou de uma época onde demonstração de afeto são afagos exagerados mostrados eternamente em fotos que amanhã se apagarão para as novas fotos de afagos exagerados, eu não acho que uma dúzia de likes vá preencher meu coração, mas de um tempo para cá é tudo que tenho, e eu não os tenho.

Eu vivo dentro de uma mente completamente conturbada de traumas e alienações sociais, eu choro toda vez que acordo do nosso matrix e volto a dormir, pois quando é noite eu sonho e em meus sonhos meu pai chora, pois ambos somos amados.

Compartilhe

Sobre o Autor

Andressa Pontes: Sonho em salvar almas despedaçadas como a minha, miro em casos perdidos e sou tão boa de queda quanto de cicatrização. Casada com a impaciência e melhor amiga da falta de atenção, tantos anos que não gosto de contar. Dona do português mais desafinado desse país e fã de poesia. Jornalista e nas horas vagas tiro foto do meu all star em todo canto de SP.

0 comentários:

Postar um comentário